Exercícios devem vir antes do controle de colesterol e pressão, diz nova diretriz

Associação Americana recomenda prioridade à atividade física para cardiopatas.

idoso atividadeO documento de 25 páginas divulgado pela AHA evidencia como a capacidade funcional cai rapidamente durante a velhice, e o declínio é ainda mais acelerado quando o idoso tem doença cardiovascular — resultado da enfermidade, mas também dos muitos remédios que a pessoa passa a tomar e das costumeiras hospitalizações. A nova diretriz destaca que apenas o exercício regular é capaz de frear esse declínio, aumentando a qualidade de vida das pessoas mais velhas. Isso acontece porque, com o treinamento, elas adquirem mais força e equilíbrio, o que aumenta a mobilidade e diminui o risco de quedas, que muitas vezes causam complicações que levam o idoso à morte. Além disso, a prática de exercícios estimula o corpo a produzir novos vasos sanguíneos, trunfo poderoso para evitar infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

— É preciso receitar exercícios e só depois passar remédios — ressalta o cardiologista Claudio Gil Araújo, um dos maiores especialistas em medicina do exercício do país. — A medicação vai se fazer presente, porque em vários casos ela é mesmo necessária, mas como coadjuvante. Não é o remédio para o colesterol que vai fazer o indivíduo se sentir melhor depois de um infarto. É o exercício que consegue isso.

Cada idoso estará mais apto a fazer determinados tipos de atividades, dependendo do que ele já fez na vida e de qual é o seu condicionamento físico atual, mas o cardiologista garante que mesmo aos 80 ou 90 anos é possível começar a praticar algum exercício. Nunca é tarde para começar. Na realidade, quanto mais sedentário e debilitado o individuo é, mais chance de ganho ele tem, porque o pouco que ele conseguir fazer a mais já será um grande avanço e o ajudará a viver por mais anos. Costumo brincar que o difícil é fazer o Usain Bolt correr mais rápido — diverte-se Araújo.

Além de atividades aeróbicas como corrida e caminhada, a musculação é recomendada — ainda que com pouca carga —, exercícios de equilíbrio e alongamento, para adquirir flexibilidade. Esse conjunto faz, hoje, parte da rotina do advogado Marcio Bandeira de Mello, de 73 anos, e o ajudou a desenvolver um condicionamento físico muito melhor do que o que ele tinha aos 50 anos, quando se descobriu cardiopata. Na época, ele não sentia dor no peito, mas estava com 90% de entupimento em uma artéria e 70% em outras duas.

Ele fez cirurgia para colocar ponte de safena e, depois, implantou stents — dispositivos que impedem a obstrução total das artérias. Começou a praticar atividade física três vezes por semana — até então, era completamente sedentário —, mas vez ou outra voltava a ser internado por conta de alguma complicação. Essas hospitalizações só terminaram em 1996, quando ele passou a se exercitar seis vezes toda semana, a conselho de Claudio Gil Araújo, que trata dele desde então. Se eu não estivesse fazendo exercícios, já teria morrido — pontua Bandeira de Mello.

Um dos autores do documento da AHA, o americano Daniel Forman destaca que, embora em alguns casos seja recomendável que o idoso se exercite acompanhado de um médico que possa mensurar o aumento de sua pressão arterial e outros aspectos, em geral é possível praticar atividades por conta própria e fora de unidades de saúde. Mas é preciso começar devagar e, se algo doer, parar.

— Mesmo dez minutos de atividade física algumas vezes por dia já é muito saudável e, normalmente, esse tempo vai aumentando à medida que a pessoa se sente mais confiante. Mas é sempre importante ter alguém por per perto ou algum telefone nas proximidades enquanto se faz o exercício. E a atividade deve ser confortável, não pode doer. Muitos jovens consideram que o exercício tem que provocar dor para gerar algum benefício, mas a regra para os adultos mais velhos é fazer atividades que dão conforto e confiança — sublinha Forman, que é chefe da Divisão de Cardiologia Geriátrica da Universidade de Pittsburgh, nos EUA. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que todo indivíduo faça, pelo menos, duas horas e meia de atividades moderadas ou uma hora e 15 minutos de exercícios intensos por semana.

Menos próteses, cadeiras de rodas e remédios – O cardiologista do esporte Fabrício Braga, da Casa de Saúde São José, no Rio, também comemorou a nova diretriz da associação americana, destacada por ele como a primeira de tamanha magnitude a priorizar o exercício físico na rotinas desses pacientes. Este documento é um marco. No meu dia a dia de médico, percebo que o exercício é de fato a chave para o idoso diminuir o risco de precisar de uma prótese, de cadeira de rodas, necessitar ser cuidado por outras pessoas e fazer uma cirurgia bariátrica. Reduz, inclusive, o número de medicamentos que a pessoa toma — lista Braga.

Hoje, o sedentarismo é considerado um problema crônico no país: 46% dos brasileiros se declaram sedentários, de acordo com uma pesquisa do Ministério do Esporte divulgada ano passado. Braga salienta que, além de ser fundamental para evitar e tratar doenças coronárias, a atividade física tem benefício comprovado para 16 tipos de câncer e para lesões musculoesqueléticas, como bursite e artrite. De todo os fatores de risco para o desenvolvimento de doenças, o principal é o sedentarismo. O colesterol alto é um fator de risco, mas não tem esse impacto. A hipertensão arterial, idem. Não há outro fator que faça tão mal.

Um dado importante é que, entre indivíduos que colocaram prótese no quadril — algo recorrente após quedas provocadas por desequilíbrio e falta de força —, a taxa de mortalidade um ano após a cirurgia varia de 26% a 52%. Isto é, ao fim de um ano, pelo menos um a cada quatro que colocaram a prótese morreram, segundo estudo publicado na revista “Geriatric Orthopaedic Surgery & Rehabilitation”. Outro aspecto interessante é que a força física cai, naturalmente, 1% a cada ano. E, a partir dos 80 anos de idade, ela passa a cair 3%. As pessoas comemoram muito quando a pressão, a glicose e o colesterol estão no lugar, mas isso de nada serve se elas não praticam exercício — enfatiza Braga.

Fonte: O Globo

‘‘Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós.’’ 1 João 1:8 (clique aqui e se surpreenda)

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